sábado, 9 de junho de 2012

A Saga do Imperador - 01 - A Ordem do Imperador das Sombras #8

Parte 8 (final)
Penumbra. Superfícies de vidro por toda a parede da sala refletiam a luz de uma mesa de metal aparentemente composta por monitores com tecnologia Touch Screen que pendia do extremo da sala, mostrando que estavam sob um teto oval que dava a impressão de estar dentro de uma concha. Por trás dos reflexos se viam silhuetas de corpos com aparência adulta ou de recém-saídos da adolescência flutuando em algum tipo de líquido. Não conseguiam enxergar os rostos daquela distância e àquele nível de iluminação.
Andaram a passos lentos até que chegaram ao centro da sala e luzes fortes se acenderam automaticamente do rodapé revelando a estrutura do lugar. Acima deles se erguia uma abóbada de capsulas cilíndricas suspensas entre centenas, talvez milhares de fios de todos os tipos e espessuras. Em cada capsula flutuava um corpo suspenso num líquido tão transparente quanto água, e em cada corpo havia uma máscara aparentemente mecânica presa ao rosto com um tubo que se conectava à parte superior do tubo de vidro. Todos os corpos estavam nus e em posição fetal como se houvessem nascido naquele recipiente.
Alex e Suzana demoraram alguns segundos digerindo a existência de tal lugar. Estavam tão perplexos que não notaram a porta se abrindo silenciosamente atrás deles e se fechando do mesmo modo cinco segundos depois. O rapaz se aproximou de um dos “tubos de ensaio” gigantes para observar melhor. Ele teve a impressão de que aquela pessoa, se fosse realmente uma pessoa, era familiar, mas não conseguia ter certeza pois a máscara que provavelmente transportava ar ao corpo cobria mais da metade do rosto.
-ALEX! – chamou Suzana quase gritando com uma voz horrorizada do outro lado da sala e apontando para um dos tubos. – Alex, é Bione!
-Como?! – ele correu rapidamente em direção à menina.
-Olha para ela! Os olhos, o cabelo, é Thaís! – a voz quase não saía por causa do choque.
Alex observou o corpo feminino com os cabelos espalhados pelo líquido e viu que era verdade. Em seguida andou alguns passos à direita e observou a capsula ao lado. Era a vez dele de entrar em choque.
- Suh! Ai meu Deus, Suh, sou eu! - e apontou para o corpo com a mão trêmula.
Suzana se aproximou e, quando olhou para o corpo, ele abriu as pálpebras esboçando um olhar vazio e sem consciência. A menina soltou um grito de terror e começou a andar de costas para se afastar dali, mas quando desviou o olhar começou a perceber que todos ali eram conhecidos, então se soltou sobre os joelhos no meio da sala sem saber o que fazer, até que percebeu que apenas um dos cilindros estava vazio.
-Gostaram deles? - a voz veio de trás deles e ambos olharam ao mesmo tempo com os corações aos saltos. - São os filhos do Imperador.
Então eles descobriram que Dayanne estava viva.
-Filhos? - perguntou Suzana com o medo gelando sua espinha.
-Sim. Ele os criou para servirem à Ordem.
-Mas eles são clones de todos os alunos de BCC!
-Sim, essa é sua utilidade...
“Dayanne, siga com o plano e pare de conversas”, a voz ecoou por todos os lados, como se saísse das paredes ocultas pelos incontáveis fios, interrompendo o discurso da menina.
-Agora mesmo, Imperador. - respondeu. - A conversa estava boa, mas agora é hora de dar tchau - disse como uma criança que termina uma brincadeira “na hora em que tava ficando boa”.
            Ela andou até a mesa e a tocou com todos os dedos da mão esquerda. Alex achou ter visto conexões minúsculas se formando entre os dedos da menina e as telas da mesa. Suzana teve a mesma impressão.
            -Sabe, eu sei que vocês estão curiosos, então vou explicar.
          Ela girou a mão no sentido horário e a moveu na direção diagonal direita. Dois cabos com pontas mecânicas em formato de cabeça de cobra rastejaram pelo chão por baixo das pernas da menina saindo da mesa em direção aos dois jovens assustados e antes que eles pudessem pensar em qualquer reação as serpentes atacaram num bote. Durante a trajetória do ataque as bocas se abriram em fração de segundos desmontando-se num mecanismo de “dedos” robóticos muito finos, semelhante a uma aranha se prendendo aos crânios das suas vítimas como se fosse prendê-los em sua teia.
        Alex e Suzana estavam presos pela cabeça e sabiam que se tentassem se libertar teriam, no mínimo, seu couro cabeludo arrancado. Na melhor das hipóteses. Involuntariamente se colocaram de joelhos, o que fez eles perceberem que agora aquele cabo controlava seus sistemas nervosos.
            -Agora que não podem mais fugir vou contar só um pouco.
            Os dois suavam frio. Suas pernas tremiam.
           -Sei que se perguntam por que justamente vocês foram trazidos para cá. Mas não tem nenhuma razão especial, vocês foram apenas os primeiros de uma lista aleatória. - ela falava sem tirar a mão esquerda da tela. - Pena que Alex não teve tempo de passar pelos testes principais como você Suh.
            -Que testes? - perguntou surpresa, ainda não conseguia se lembrar de nada.
-Agora isso não importa, o que importa é que você sobreviveu.
-Mas você não queria me matar? - perguntou Alex confuso com a história.
-Antes sim, minha missão ficou confusa por algum motivo, mas o Imperador me reprogramou.
-Como assim, você é um cyborg? - ele estava mais confuso ainda agora.
-Todos nós filhos do Imperador somos cyborgs. Todos esses que vocês veem aqui são. - os dois amigos ficaram sem palavras. - Bom, mas acho que isso já respondeu o suficiente. - ela olhou para a tela em que tocava. - Imperador, permissão para continuar.
Ouviu-se um som semelhante ao do mecanismo das portas daquele lugar se abrindo. Um feixe de fios se abriu criando uma passagem para o homem entrar na sala de frente para os reféns.
E eles conheciam seu rosto.
-Pode começar. - falou com um sorriso de vitória discreto no rosto.
-É você! - gritaram os dois em coro dois segundos antes de sentirem uma dor perfurante em suas cabeças fazendo-os gritar de dor. Parecia que uma agulha estava sendo introduzida em seus crânios, embora agulhas minúsculas perfurassem apenas seu coro cabeludo transferindo pequenas cargas elétricas.
Suzana desmaiou. A última coisa que Alex viu antes de fazer o mesmo foi um ser pequeno e cinzento que caminhava lentamente em sua direção. Ele se aproximou e olhou nos olhos do rapaz.
Os olhos do animal mudaram de forma e agora Alex pôde perceber que não era a forma de uma letra S, mas a forma de uma serpente. Mas ele não se lembraria mais disso.
Alex ficou inconsciente.
***
Suzana acordou no andar abaixo das salas do CEGOE. Estava com um livro de Cálculo 2 no colo e uma lapiseira de ponta 0.7 caída no chão ao lado da sua bolsa. Ainda eram onze da manhã, então apenas voltou a estudar até uma da tarde quando levantaria para almoçar no RU.
Alex acordou em sua cama. Tinha perdido a hora do estágio, ia ter que inventar alguma desculpa para a Irmã Marlene no dia seguinte. Olhou no seu aiPhone. Havia uma mensagem. Abriu para ler, o remetente era um contato gravado como “Suh”. Estava escrito “Queria te contar uma coisa a sós...”. Ele achou estranho, mas apenas se levantou para tomar café da manhã. Não devia ser nada sério.
No Edifício Vasconselos Sobrinho entrava Dayanne. Ia estudar programação com Jonathan e Mariane. Eles nunca desconfiaram da menina. Até pouco tempo depois.
No galpão onde tudo começou, no vão em que Suzana fora presa, a tela à qual ficou olhando enquanto estava presa ainda estava ligada. Nela passavam palavras aparentemente soltas e sem sentido por toda a tela caindo como uma cascata. Sobre um fundo branco, códigos desconhecidos escorriam numa fonte Comic Sans verde.
Numa sala com uma mesa redonda de poucos lugares um grupo de homes se reunia. O Imperador se pôs de pé.
-Estamos prontos para começar. - disse num tom firme.
Todos se mostraram satisfeitos.
Fim.

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